Como o intestino influencia na alergia?

O intestino tem sido foco de uma infinidade de estudos nos últimos anos. Hoje já sabemos que ele é muito mais do que um simples órgão que metaboliza e excreta alimentos, e que esta envolvido em inúmeros processos patológicos, inclusive a alergia. Ele é capaz de abrigar até 100 trilhões de bactérias, valor esse que supera o número de células presentes em um indivíduo; nele encontram-se de 60 a 70% das células imunológicas, e credita-se que a rotina e alimentação atual têm alterado drasticamente essa população microscópica.[1,3]

A flora intestinal apresenta funções importantes, como a síntese e defesa do organismo. Uma vez desregulada, ocorre a disbiose intestinal, que significa que o órgão não consegue absorver adequadamente as vitaminas, quebrar os peptídeos, e acaba reabsorvendo as toxinas causando inflamação sistêmica,  alergia e a disfunção autoimune .[1] 

Em um processo de disbiose, a falta de equilíbrio entre os microrganismos presentes na flora intestinal faz com que haja declínio das bactérias benéficas com consequente predomínio de bactérias patogênicas, além de fungos, que produzem subprodutos químicos e altamente tóxicos que são absorvidos pelo trato intestinal até a corrente sanguínea. Esses organismos maléficos, juntamente com os subprodutos formados, são capazes de destruir o revestimento no TGI (trato gastrointestinal) abrindo verdadeiros “buracos” no epitélio intestinal. Dessa forma, moléculas dos alimentos não digeridas são capazes de atravessar esses orifícios, e com isso, o sistema imune as reconhece como invasoras, gerando anticorpos e causando a alergia ou intolerância alimentar.

A transferência dos microrganismos da mãe para o feto ocorre desde a gravidez. A microbiota infantil e seus genes passam por diversas mudanças durante seu desenvolvimento que ocorre até os 3 anos. Todo esse processo sofre influência direta da genética, fatores ambientais, uso de medicamentos como antibióticos e a própria amamentação.[3]

O tipo de parto já é a primeira grande influência sobre a constituição da flora da futura criança: bebês nascidos de parto normal são mais colonizados por bactérias benéficas que os nascidos por cesariana. Crianças nascidas por cesarianas terão uma quantidade maior de bactérias do tipo Clostridium diffcile, por exemplo, e poderão ter mais cólicas abdominais que crianças de parto normal.[4,5]

Em seguida, a amamentação influi diretamente na formação da microbiota de uma criança, pois o leite humano contém algumas bactérias probióticas naturais, além de ser rico em oligossacarídeos (prebióticos) que auxiliam no desenvolvimento da flora da criança.[2]

Um estudo, publicado no Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition, avaliou as amostras de fezes de recém-nascidos nos primeiros 20 dias, alimentados com fórmulas ou leite materno, e concluiu que a espécie de Bifdobacterium (umas das bactérias benéficas mais importantes do TGI) é dominante nas crianças alimentadas por leite materno.[1] Ainda, relacionando o desequilíbrio da microbiota com doenças alérgicas, um estudo, publicado na Clinical Exp. Allergy, mostrou que nos lactantes (objetos do estudo) que apresentavam alergias alimentares havia um desequilíbrio na sua microbiota, com menor quantidade das bactérias benéficas e predomínio de maléficas como Stafilococcus aureus [6] e, inclusive, em crianças com eczemas atópicas também foi evidenciado um desequilíbrio na microbiota intestinal.

Portanto, o tipo de alimentação e a composição da microbiota intestinal são fundamentais para o desenvolvimento do sistema imunológico e tem um papel muito importante na regulação de doenças alérgicas. No artigo do “TheEconomist” [7] surge a pergunta “Se as bactérias nos fazem adoecer, a sua troca podem nos tornar mais saudáveis?” É esta a ideia dos defensores dos microrganismos probióticos.

Você  não está sozinho nessa, pessoas de todos os lugares do mundo sofrem com alergias. Vamos trabalhar juntos, e entender que os probióticos são microrganismos, vivos, que, quando utilizados em doses corretas, trazem benefícios à saúde. Podem ser utilizados tanto em alimentos como em suplementos alimentares e medicamentos, modulando as desregulações gastrintestinais para tratar as doenças alérgicas como asma, eczema atópico, rinite alérgica e alergias alimentar.                 

Drª Marcia Tornavoi – CRM-SP 58771 / RQE 40397 – Médica Nutróloga (11) 3813-2261 – (11) 99131-5044 whatsapp   (34) 3255-1221 – (34) 9286-0269 whatsapp

REFERÊNCIAS

1. HARMSEN H. J. M, WILDEBOER-VELOO, A.C. M., RAANGS, G. C. Analysis of Intestinal Flora Development in Breast-Fed and Formula-Fed Infants by Using Molecular Identifcation and Detection Methods. J Pediatr Gastroenterol Nutr, v.30, p. 61-67, 2000.

2. VANDENPLAS, Y.; VEEREMAN-WAUTERS, G.; DEGREEF, E. Probiotcs and prebiotics in prevention and treatment of diseases in infants and children. J Pediatr, v. 87, n. 4, p. 292-300, 2011

3. WEST, C. E.; JENMALM, M. C., PRESCOTT, S. L. The gut microbiota and its role in the development of allergic disease: a wider perspective. Clinical & Experimental Allergy, v. 45, p. 43–53, 2014.

4. NEU, J; RUSHING, J.Cesarean versus Vaginal Delivery: Long term infant outcomes and the Hygiene Hypothesis. Clinical Perinatology, v. 38, n. 2, p. 321-331, 2011.

5. PANDEY P. K.; VERMA, P. Comparative analysis of fecal microflora of healthy full-term Indian infants born with different methods of delivery (vaginal vs cesarean): Acinetobacter sp. prevalence in vaginally born infants. Journal of Biosciences, v. 37, n. 6, p. zZz 9-998, 2012.

6. BJORKSTEN, B.; NAABER, P.; SEPP, E.; MIKELSAAR, M. The intestinal microflora in allergic Estonian and Swedish 2-year-old children. Clin. Exp. Allergy, v. 29, p. 342-346, 1999

7. Me, myself, us.The Economist. (2012) 19

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